Autores: Rafael Fernando dos Santos | Heloísa Eid Lima

Para decidir realizar ou não o desmame, como e quando, é necessário atentar-se para a produção leiteira das ovelhas, tanto no volume como na qualidade, pois o leite da ovelha é o alimento com o qual o cordeiro apresenta melhor desempenho (saiba mais aqui). Esta decisão técnica depende de conhecimento prévio sobre o sistema produtivo, para que seja possível conseguir melhores desempenhos dos cordeiros com menores custos de produção. Sendo assim, o objetivo deste artigo é apresentar conceitos técnicos e resultados práticos, com citações de pesquisas, depoimentos de profissionais e ovinocultores, para que os produtores tenham ferramentas para tomar decisões corretas nas fazendas.


A professora Dra. Alda Monteiro, que desenvolve pesquisas em sistemas alimentares de ovinos, apresentou alguns posicionamentos sobre o tema em sua palestra ministrada no I Workshop Internacional em Sistemas Integrados de Produção Agropecuária, 2014: “O que é trabalhar bem e ter um planejamento alimentar? É conhecer a oferta de pasto e as necessidades nutricionais dos animais em cada categoria. Sem isso, não se produz cordeiros. É necessário adequar a oferta de acordo com o ciclo produtivo da ovelha, porque mais importante que produzir o cordeiro, é manter a matriz bem nutrida. ”

Como afirmou Susin (1996), é natural fêmeas em fase de produção de leite perderem peso, como chamamos de balanço energético negativo, e esse declínio no peso é acentuado principalmente quando os alimentos são de baixa qualidade e disponibilidade, além de prejudicar no desenvolvimento do cordeiro e desempenho reprodutivo.

O produto mais valioso dentro da ovinocultura de corte é o cordeiro. Por tanto é necessária uma boa aplicação de recursos alimentares na fase de nascimento até o abate dessa categoria (entenda melhor aqui).

A escolha de desmamar ou não desmamar está relacionada de forma direta com a oferta de forragem, e cada decisão deve ser baseada nessa oferta. Mas por quê? Quando há baixa oferta de forragem, a matriz não consegue suprir suas necessidades e precisa continuar a produção leiteira, perdendo a condição física.

Em contrapartida, no caso da oferta suprir a demanda, prosseguir com a amamentação pode trazer benefícios, tais como a diminuição da suplementação e com isso a redução do custo.

Outro ponto que pode influenciar na tomada de decisão é a suplementação dos cordeiros quando o leite materno não é o suficiente para suprir suas exigências nutricionais. Essa suplementação pode ser feita principalmente por dois métodos, nos quais apenas os cordeiros têm acesso a alimentação: creep feeding ou creep grazing. O creep feeding objetiva fornecer ração de alto nível. Já o creep grazing disponibiliza pastagem de boa qualidade aos cordeiros.

BANCHERO et al. (2006) compararam sistemas com creep feeding e com creep grazing. Observam menores custos de terminação no creep grazing, e indicaram maiores possibilidades de aplicação da técnica como sistema de terminação para as propriedades.

O que dizem os produtores?

Com o objetivo de complementar a discussão e conhecer como trabalham os produtores brasileiros, foi realizada uma enquete no grupo do Facebook “Criadores de Ovelhas” no dia 4 de abril de 2016. Foi perguntado como era feito o desmame e qual o manejo que executavam. Ao total, 57 pessoas responderam a enquete. Dentre as respostas, 47% disseram que não realizam desmame, 33% desmamam com mais de 90 dias, 11% desmamam entre 60 a 74 dias, e as demais respostas totalizaram 9%, conforme apresentado no gráfico 1.

Gráfico 1. Resultado da enquete realizada no grupo “Criadores de Ovelhas” no Facebook.

Gráfico referente a pesquisa realizada pela CordeiroBIZ no grupo “Criadores de Ovelhas” do Facebook.

Três criadores justificaram os seus respectivos manejos, e mostraram que apesar de estarem no mesmo estado, os sistemas alimentares diferem entre si, mas sempre com foco em garantir comida de boa qualidade. Vale atentar que no Rio Grande do Sul a pastagem nativa em sua maioria é de trevo e azevém, forrageiras de clima temperado que apresentam maior qualidade quando comparadas com as forrageiras tropicais.

Um produtor de Passo Fundo/RS disse: “Não realizo desmame, pois em minha opinião, o cordeiro precisa de leite materno mesmo sendo em pouco volume para se desenvolver melhor. Até porque o cordeiro vem a ganhar mais peso gradativamente, pois querendo ou não, o leite sempre é um suplemento. A alimentação das matrizes é feita através de campo nativo, e no inverno aveia e azevém mais suplemento com aveia branca no cocho uma vez ao dia. O cordeiro acompanha a mãe e automaticamente recebe o mesmo tratamento. Sendo assim, tiro cordeiro com 5 meses de idade com rendimento de 20 a 25 kg de carne.”

Mateus Pornn, da Cabanha Duas Figueiras localizada Taquari/RS: “Como tenho poucas ovelhas faço piquetes com pastagens de inverno consorciada com tifton e aruana. No verão, utilizo uma área de Campo nativo. Quando prendo as matrizes, uso silagem a base de milho e milho em grão com aveia, além de uma mistura que dou separada para os cordeiros.”

Rafael Portela Rocha de Canoas/RS: “Olha, eu tinha uma rotina na fazenda, onde era feito sim o desmame, sempre. Mas como criador em casa, em chácara, passei a não fazer isso. Procurava apenas retirar os machos, para evitar problemas. Assim as borregas tinham um melhor resultado, claro que para isso, sempre usei uma alimentação bem reforçada. Ração ovina com aveia, ou ração equina também. Isso ofertado para todos. E sal, sempre.”

“A meta final sempre será a sustentabilidade e lucratividade dentro da ovinocultura.” Profa. Dra. Alda Lucia Monteiro, durante sua palestra no I Workshop Internacional em Sistemas Integrados de Produção Agropecuária, 2014

Para este objetivo se concretizar, é necessário priorizar o planejamento nutricional das matrizes para que elas tenham condições de produzir colostro e leite de qualidade, em volume suficiente para a sobrevivência e o máximo desempenho do cordeiro. Vale sempre lembrar que o leite materno nunca deve ser substituído e que a suplementação é uma ferramenta para potencializar ganhos.

Bibliografia consultada

BANCHERO, G.; MONTOSSI, F.; GANZÁBAL, A. Alimentación estrategica de corderos: La experiência del INIA en la aplicación de las técnicas de alimentación preferencial de corderos en el Uruguay. Serie Técnica 156. INIA, 2006. 28 p. Disponível em http://www.inia.uy/Publicaciones/Documentos%20compartidos/18429300909172758.pdf

SUSIN, I. Exigências nutricionais de ovinos e estratégias de alimentação. In: SOBRINHO A.G.S.; BATISTA A.M.V., SIQUEIRA E.R.; ORTOLANI E.L.; SUSIN I., SILVA J.F.C.; TEIXEIRA J.C.;BORBA M.F.S. (Ed.). Nutrição de ovinos. Jaboticabal: FUNEP, 1996. p.119-141.