A Nova Zelândia é reconhecida mundialmente pelo rebanho ovino produzido o que rende a ilha o status de ‘O país das ovelhas’. Em uma proporção de sete ovinos por habitante já era de se esperar que as ovelhas ocupassem um lugar de grande destaque no cenário econômico e cultural do país. Por possuir um sistema de produção em sua totalidade extensivo e sujeito a severas variações climáticas e econômicas, eficiência e foco são as premissas para o sucesso do ovinocultor neozelandês.

Ao acompanhar de perto o dia-a-dia de uma fazenda de ovinos no país é possível se deparar com oportunidades constantes de encontrar algo novo e interessante no jeito de produzir tão específico da Nova Zelândia, que normalmente não encontraríamos no Google. Uma delas é a máxima: “Não perturbe as ovelhas!”.

A seleção natural é um se não o carro-chefe no sistema de produção das propriedades de ovinos no país. Para que isso seja prioridade, no entanto, o sistema precisa estar em perfeita harmonia e planejado pelo menos seis meses antes de cada fase de execução. Quando aos animais são dadas as condições básicas para que possam expressar comportamento natural individual e/ou em grupo, torna-se evidente aquele que não se encaixa no sistema. Assim, o descarte é orientado e preciso. O melhoramento genético (ferramenta humana) passa a ser, então, consequência ao invés de ficção científica.

Não perturbe as ovelhas e ganhe em troca a maior produtividade do seu rebanho.

Não perturbe as ovelhas e ganhe em troca a maior produtividade do seu rebanho.

Explicado isso muito faz sentido ouvir constantemente os conselhos e/ou pedidos daqueles que trabalham diretamente com os animais: “Por favor, não perturbe as ovelhas”. Faz-se claro: quanto maior a interferência humana menor o potencial de expressão natural do animal e, consequentemente, mais vagaroso ou nulo é o avanço no sistema produtivo.

Sabemos que é muito difícil no começo praticar o ‘desapego’. É de nossa conduta querer ajudar, proteger e idolatrar os animais, ainda mais quando há a chance de ‘doer o bolso’. O fato é: a partir do momento que damos nomes aos bichos nos tornamos menos produtores.

Se partirmos de uma situação hipotética na qual nós produtores brasileiros temos total controle e ciência sobre nossa produção e damos condições próximas do ideal para os animais expressarem potencial produtivo, a diferença principal no pensamento do ovinocultor brasileiro e do ovinocultor neozelandês é respectivamente:

– “Ah a Princesa não pegou cria. Não tem problema, ela pode entrar na monta ‘Segunda Chance’ de Outubro.”

– “Ovelha brinco 2354, vazia. Não merece comer o mesmo que a 4567, companheira de mesmo lote de monta, que vai parir gêmeos. Mande-a para o descarte.”

Mas, mas, mas… Não tem “mas”. O ovino possui ciclo rápido e, portanto, não se admitem falhas. Um cordeiro ‘mal desmamado’, representa prejuízo no confinamento. Uma ovelha que, mesmo após condições adequadas de manejo, não emprenha não merece ficar mais oito meses ‘comendo de graça’. Se vamos ser justos, que sejamos com os animais que produzem porque, afinal, são eles que ‘pagam as contas’.

Desta maneira aqui vão alguns comentários que marcam quem aprende a trabalhar lado-a-lado com ovinocultores neozelandeses:

  • A ovelha na natureza é presa. Portanto, ela tem instinto de presa ainda que domesticada e manejada produtivamente. Se a ela é dada adequada condição para que expresse naturalmente seus instintos e ela rejeita um cordeiro é por que na cabeça dela aquele animal representa risco à vida dela e, no caso de gêmeos, do outro cordeiro que pode estar saudável. Logo é o instinto de sobrevivência agindo sobre o comportamento do animal. Aquele animal rejeitado pela mãe possui alta probabilidade de se tornar um animal fraco ou de pobre desempenho no futuro. O inverso também é verdadeiro. Se o(s) cordeiro(s) tem a capacidade de crescer, mas a ovelha não supre adequadamente às necessidades daquele(s) cordeiro(s) não se pode ‘perder tempo’ (leia-se comida de qualidade) com ela.
  • Os primeiros ovinos apareceram em regiões diversas de extrema variação geoclimática. Só sobreviviam, os cordeiros cujas mães tivessem melhor habilidade materna. Logo, a conexão ovelha-cordeiro é muito importante para que ela possa expressar o máximo potencial genético como mãe que dispõe. Quanto mais você manusear, levar, trazer, por telhado, travesseiro e coroa, mais rápido é a perda dessa habilidade intrínseca e crucial para o sucesso da produção.
  • A reprodução de animais problemáticos pode representar perpetuação de genes em longo prazo (até a 10ª geração) no rebanho, fato que promove queda nos índices produtivos e sacrifício do desempenho de animais superiores.

Portanto, “não perturbe as ovelhas para que possa realmente ser justo com elas”.

E você? Está sendo justo com suas ovelhas?

Equipe CordeiroBIZ