Faz-se necessário um trabalho sério e focado para garantir a produtividade do rebanho ovino nacional.

Dentre todas as atividades sanitárias preventivas para ovinos, há somente uma ação anual seguida por qualquer produtor e que nem mesmo se faz obrigatória: a vacinação contra clostridiose. Devemos destacar a última ação profilática que se tornou notícia recente em todos os jornais:

“O Departamento de Defesa Sanitária da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Agronegócio do Rio Grande do Sul (SEAPA) orienta os criadores de ovinos e veterinários a realizarem o exame de brucelose ovina (ou epididimite ovina). A doença pode provocar prejuízos econômicos, causando problemas de reprodução no criatório, e tornar os animais inférteis.” Fonte: Ruralbr (http://pecuaria.ruralbr.com.br/noticia/2013/01/teste-de-brucelose-para-ovinos-e-obrigatorio-no-rio-grande-do-sul-4010417.html, acessado em 14/01/2013).

O trecho acima retrata prejuízos econômicos que geram infertilidade coletiva ao rebanho. Há tempos a equipe CordeiroBIZ discute ações importantes e preventivas para que o rebanho possa responder de forma saudável ao manejo diário.

Porém, a falta de compreensão minada por valores e interesses particulares dos órgãos que se posicionam a frente do setor, acabam por transviar os rumos da ovinocultura brasileira. É inadmissível a persistência profilática somente para animais de pista, omitindo a necessidade gritante do rebanho de corte, o qual soma muito mais indivíduos à ovinocultura brasileira.

Ainda na mesma notícia, vejam:

“Além de ajudar a identificar problemas no rebanho, o atestado negativo para a doença é exigido para a emissão de Guias de Trânsito Animal (GTA) aos exemplares machos reprodutores que forem participar de exposições, feiras, leilões ou outras aglomerações de ovinos em todo o Rio Grande do Sul.”

Produtores, que tipo de prevenção tentamos fazer ao atender somente uma categoria existente? Seria uma categoria animal ou seria uma categoria de interesses particulares, fomentada pela participação em feiras que geram rios de dinheiro e mantêm vivas associações e hobbies de animais de pista considerados muitas vezes referência em qualidade?

A promoção feita para animais de feiras ainda ressalta aos olhos do produtor e diminui o valor das propriedades de corte para as quais, muitas vezes, são indicadas práticas como a quarentena (separação de animais por um período de, no mínimo, 40 dias para observação) como maneira categórica de prevenção de qualquer doença. Como se problemas como esse fossem resolvidos somente com quarentenas.

Torna-se claro o abismo que há para que a produção de corte brasileira alcance bons resultados. Reprodutores de feiras muito poucas vezes são vendidos para rebanhos comerciais, e acabam por ser apenas destaques em concursos de premiação da raça. Dessa forma, o Departamento de Defesa Sanitária da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Agronegócio citado no primeiro trecho de fato gasta seu tempo. Levantamentos pontuais em indivíduos que caso se misturem fora do ambiente de feiras com outros animais de corte infectados apresentarão a doença da mesma forma.

Abaixo seguem algumas considerações da zootecnista Dayanne M. Almeida, que reside na Nova Zelândia e gerencia uma conceituada fazenda que produz ovinos no país. Ela enfatiza o quão importante é o exame de brucelose, liberado depois de 30 anos no Brasil e com avaliação restrita:

A brucelose ovina é a doença causada pela bactéria Brucella ovis e sua maior consequência é a redução na fertilidade do rebanho (tanto por causar epididimite, caroços na base do testículo, nos carneiros e/ou aborto ou natimortos nas ovelhas) e, consequentemente, redução dos índices produtivos da fazenda. A doença afeta apenas as fêmeas por um período curto de tempo e elas tendem a eliminar a doença a partir do ciclo estral seguinte e, por isso, o foco para o controle da brucelose é dado ao reprodutor.

A transmissão requer proximidade e é geralmente dada por contato sexual direto entre reprodutores ou de um carneiro para o outro quando servem a mesma fêmea. A brucelose ovina pode reduzir a taxa de concepção das matrizes quando fortemente inserida no rebanho. No entanto, estes efeitos são facilmente mascarados quando uma elevada porcentagem de carneiros em relação a ovelhas é utilizada como, por exemplo, na proporção de 1 carneiro para 50 ovelhas, ainda que metade dos carneiros possam ser inférteis, haverá animais com sêmen suficientemente viável para alcançar um resultado pós estação de monta aceitável.

Para os rebanhos que foram recentemente infectados geralmente é possível erradicar a doença por meio de análises sanguíneas consecutivas e descarte contínuo dos machos infectados. Em rebanhos com prolongada taxa de infecção torna-se mais prático e com melhor custo-benefício substituir todos os carneiros da fazenda.

Na Nova Zelândia, a doença tem sido controlada e quase erradicada após a adoção generalizada do regime de acreditação. No entanto, um nível razoável de infecção ainda está presente em rebanhos comerciais e, por esse motivo, faz-se de suma importância o recredenciamento anual de todas as propriedades que comercializam reprodutores, o que é feito por representantes da Sociedade de Veterinários de Ovinos e Bovinos de corte da Nova Zelândia (NZVA), de associações de produtores (que representam a indústria ovina), de universidades como a Massey University e laboratórios de diagnóstico aprovados. Um comitê é responsável pela gestão da aplicação do regime e para modificar o esquema de acordo com as necessidades no país.

Este é um esquema da indústria de base neozelandesa e a participação do produtor de carneiros é voluntária. No entanto, é recomendado às fazendas comerciais que adquiram animais de estabelecimentos reconhecidos e acreditados apenas. Da mesma forma, recomenda-se que carneiros oriundos de propriedades sem acreditação não sejam permitidos em qualquer transação, seja ela em feiras ou venda direta.

Atestado de propriedade livre de brucelose dos animais comercializados na One Stop Ram Shop, Nova Zelândia.

Atestado de propriedade livre de brucelose dos animais comercializados na One Stop Ram Shop, Nova Zelândia. Exemplo de organização que garante a produtividade dos rebanhos. Surtos de brucelose jogariam no lixo todo o planejamento genético (improdutividade e descartes) e nutricional (contaminação da área – pastagem e solo).

A comercialização de carneiros sem qualquer incremento genético é muito comum no Brasil. As propriedades têm vendido carneiros de forma aleatória de acordo com o fenótipo mais agradável que alcançam da raça e não por seu verdadeiro valor genético. A realidade de produção dos reprodutores para corte é tão vasta que é obrigação do comprador exigir o teste de brucelose ovina ao vendedor de reprodutores como é feito na Nova Zelândia.

É importante enfatizar que em um país que busca o controle, como a Nova Zelândia, ainda existam casos pontuais manifestando-se.

Assim, ações como essa em vigor no Brasil, podem comprometer a fertilidade do rebanho nacional, dando foco somente para animais que nem mesmo pisarão nos campos, e deixando que a doença siga se proliferando em um sistema já falho por origem no que diz respeito à nutrição e manejo. A profilaxia deve partir de todas as regiões e ser de fato obrigatória aos produtores de machos.

Os laboratórios cadastrados, assim como os técnicos responsáveis devem ser de vasta amplitude, podendo focar a necessidade brasileira e não o interesse de algumas organizações.

A equipe CordeiroBIZ alertou em outros artigos a falta de fertilidade apresentada pelos rebanhos ovinos brasileiros. O tráfego de animais é bastante intenso, a ponto de ser de extrema falta de responsabilidade sanitária ignorar a realidade no nosso país.

Chamamos a atenção sobre o problema iminente de descaso ao calendário sanitário ovino. O apoio de médicos veterinários é de peso inigualável para essa questão. Solicitar o apoio das organizações nunca foi tão importante como agora.

Produtor, faça a sua parte, exija carneiros testados!

Equipe CordeiroBIZ