Boi impede valorização das outras carnes no mercado. E o cordeiro?

Segue mais uma avaliação da carne de cordeiro na corrida das commodities.

Há algumas semanas comentamos neste mesmo espaço que a carne bovina é a preferência nacional. A ideia é encaixar a carne de cordeiro neste contexto. Vimos que dentre as proteínas animais disponíveis no mercado para consumo, o cordeiro ainda fica para trás, sem tomar realmente alguma posição de destaque. Além disso, alguns fatores este ano colaboram para impedir a valorização do preço dos produtos em questão, a exemplo da seguinte notícia:

“A produção de carne bovina foi muito alta esse ano e aliada a uma exportação debilitada, levou a uma maior oferta no mercado interno, o que impede que outras carnes tenham um aumento de preços mais acentuados.” (Fonte: Agência Estado)

A consideração feita ao produto bovino caminha de acordo com a análise feita pela equipe do CordeiroBIZ desde o começo da série “O BIZ da carne”. Isso vale para produtores de cordeiros trabalhados na ração ou em pasto, tanto faz!

A carne bovina é produzida em praticamente todo o território nacional e já tem sua ‘linha de consumo’ tão consolidada que acaba sendo a balizadora de preços para as outras carnes, como a de frango, a suína e em menor escala, a de cordeiro. Ainda existe bastante trabalho a ser feito no setor da carne bovina, em questões de marketing e organização dos elos da cadeia como um todo, mas mesmo assim, eles estão mais bem estruturados que a indústria ovina brasileira… Isso faz muita diferença!

Desta forma, um excelente começo que pode ser feito “dentro de casa” é a conscientização sobre o custo de produção, primordial para a decisão do que produzir na fazenda aliado a previsão de rentabilidade no negócio.

Esse custo também se torna muito importante para direcionar a tomada de decisão:

  • Produtores, quem não desmamou cordeiros pesados esse ano deve repensar a estratégia de confinamento.
  • Terminadores, agora é a hora! Se ambas as pontas diluírem custos, a relação de desmame/engorda fica mais equilibrada do que o produtor arcar com o ciclo completo.

Mas o que isso tem a ver com o boi?

Estamos em um momento tão crítico de preços de grãos que até mesmo alguns confinadores de ‘boi gordo’ estão repensando sua estratégia para este ano, confinando menos ou partindo para a terminação em pasto. Esse ponto é de alta relevância e independente da atividade! Atentar-se aos movimentos de preços e oportunidades deve ser uma ação constante.

Devemos considerar que a terminação em pasto é mais barata e ter um animal pronto a campo gera uma liquidez muito mais interessante ao terminador do que confinar. Isso ocorre mesmo que o valor da arroba no mercado futuro sinalize alta, como ocorre no momento, apontando para o confinamento desses animais.

Sim, mas e daí?

Custo de oportunidade

Bom, se a ovelha criada em grandes campos tiver uma oferta de arrendamento do terminador de bovino a R$20,00/bovino/mês (base de preço: São Paulo), talvez produtor, seja a hora de repensar seus custos.

Esse é o famoso custo de oportunidade!

Onde se coloca 20 ovelhas de 60 quilos em um pasto bem trabalhado, coloca-se 4 bois por hectare para engorda. E agora produtor?

  • Cordeiro = R$200,00 (valor bruto)
  • Boi = R$ 20,00 /animal

Logo, considerando quatro animais por hectare, temos o valor líquido de R$ 80,00/ha.

R$ 80 / R$ 200 = 2,5 cordeiros terminados para cada boi no hectare.

Significa que precisamos terminar 2,5 cordeiros por hectare/mês para a ovinocultura não perder área para o gado. A diferença aqui é que estamos trabalhando o valor líquido, no caso do arrendamento do boi, e o valor bruto, no caso do cordeiro que depende de um sistema profissionalizado.

Veja como a situação de mercado entre o boi e o cordeiro está muito equiparada!

Percebam também que neste caso o produtor de carne em pastagens é o mais desafiado, uma vez que quem produz carne com farelos não tem espaço físico para competir com o boi.

A disputa é acirrada! Se o ovinocultor for pouco produtivo o boi ganhará vantagem.

Ao garantir maior produtividade por hectare dos rebanhos ovinos seremos capazes de competir na cadeia de carnes

Somos produtores de commodities e não temos controle sobre o preço de venda do nosso produto, sendo este imposto pelo mercado, determinado basicamente pela lei de oferta e demanda. Entretanto, o produtor tem condições de colocar na ponta do lápis todas as suas despesas e fazer as melhores escolhas para construir custo de maneira competitiva. É necessário usar boas informações e manejo estratégico.

A conclusão é que a falta de estrutura, noções de custos de produção e viabilidade do sistema estão causando danos às diferentes formas de produção da carne ovina. Só depende de iniciarmos o trabalho ‘dentro da porteira’ para os resultados serem sentidos em toda a cadeia da ovinocultura.

Equipe CordeiroBIZ